TODOS ESTÃO NUS

A crise em Brasília arrancou as vestes da República. Executivo, Legislativo e Judiciário, cada um à sua maneira, enfrentam desgaste, suspeitas e cobranças públicas. A Constituição diz que os Poderes devem ser independentes e harmônicos, mas o ambiente atual é de desconfiança e confronto. O problema deixou de ser apenas político. É uma crise de credibilidade. E, diante do cidadão, ninguém parece suficientemente vestido para apontar a nudez do vizinho.

O SUPREMO NO CENTRO DO FURACÃO

O Supremo, instituição que deveria permanecer acima das paixões da política, entrou no centro da tempestade. As revelações envolvendo mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes levaram entidades jurídicas a pedir apuração rigorosa e imparcial. A crise cresce justamente porque atinge uma instituição cuja autoridade depende, acima de tudo, da confiança. Quando surgem dúvidas sobre quem deve julgar, investigar ou ser investigado, o dano institucional precede até mesmo qualquer conclusão definitiva.

CONGRESSO SEM MORAL PARA COBRAR

Deputados e senadores elevam o tom contra o Judiciário, mas o Congresso também carrega sua própria crise de reputação. O Parlamento que fiscaliza precisa igualmente aceitar ser fiscalizado. Não há autoridade moral em exigir transparência de outro Poder enquanto prevalecem práticas políticas marcadas por privilégios, negociações pouco compreendidas pelo cidadão e permanente disputa por recursos públicos. A República não precisa de uma guerra entre Poderes. Precisa que cada Poder limpe primeiro a própria casa.

PLANALTO EM SILÊNCIO

O silêncio também é uma escolha política. Quando crises atingem instituições fundamentais, o Palácio do Planalto calcula cada palavra para não incorporar problemas alheios à campanha presidencial. A atual turbulência no STF já repercute diretamente no ambiente eleitoral, enquanto Lula procura evitar associação imediata ao conflito. Pode ser estratégia. Mas o presidente da República não é apenas candidato: é chefe de Estado. Há momentos em que preservar as instituições exige mais do que distância conveniente.

QUEM INVESTIGA QUEM?

A crise chegou a um ponto desconfortável: magistrados, integrantes do Ministério Público, policiais, políticos e empresários aparecem no mesmo ambiente de suspeitas, cobranças e questionamentos. Juristas passaram a discutir inclusive os limites da atuação do ministro André Mendonça nas investigações relacionadas ao caso Master. A pergunta que começa a inquietar Brasília é simples e devastadora: quando tantos personagens do sistema aparecem de algum modo no enredo, quem terá independência suficiente para investigar até o fim?

CORPORATIVISMO É VENENO

Toda instituição tem o instinto de proteger seus integrantes. O perigo começa quando a defesa institucional se transforma em corporativismo. Tribunal não pode existir para proteger ministro; Congresso não pode existir para proteger parlamentar; governo não pode transformar máquina pública em escudo de aliados. Democracias não são fortalecidas escondendo erros, mas expondo-os e corrigindo-os. A população suporta até crises graves. O que ela dificilmente suporta por muito tempo é a sensação de que existem cidadãos submetidos à lei e autoridades protegidas dela.

A ELEIÇÃO VAI COBRAR A CONTA

A crise institucional já atravessou os limites de Brasília e entrou definitivamente na campanha eleitoral. O episódio envolvendo Moraes e Vorcaro passou a ser explorado politicamente e já alimenta manifestações, pedidos de impeachment e discursos contra Lula e o Supremo. O risco é transformar uma eleição que deveria discutir emprego, segurança, saúde e futuro do país em um gigantesco julgamento moral das instituições. Quando todos chegam vulneráveis à urna, cresce o voto de protesto — e diminui o voto de esperança.

O PERIGO MAIOR

O maior risco não é a crise entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Democracias convivem com conflitos. O perigo verdadeiro nasce quando o cidadão conclui que nenhum dos três merece confiança. Nesse instante, abre-se espaço para aventureiros, salvadores da pátria e soluções fora das regras democráticas. Brasília precisa compreender rapidamente a gravidade do momento. Recuperar credibilidade exige investigação, transparência, responsabilidade e punição quando houver culpa comprovada. Porque instituições desacreditadas não são derrubadas apenas por inimigos. Muitas vezes começam a ruir por dentro.

O ESCÂNDALO VIROU ROTINA

Brasília parece ter perdido a capacidade de se surpreender. Uma denúncia atropela a outra, uma suspeita ocupa o lugar da anterior, e o país vai se acostumando ao que jamais deveria ser normal. O escândalo de hoje dura até a manchete de amanhã. Essa banalização é perigosíssima porque transforma indignação em cansaço e cansaço em tolerância. Quando a sociedade começa a considerar natural aquilo que deveria provocar revolta, a degradação institucional deixa de ser exceção e passa a integrar o funcionamento da República.

A OMISSÃO TAMBÉM CONDENA

Há momentos em que não agir é tão grave quanto agir errado. Diante de uma crise institucional dessa dimensão, o silêncio de autoridades, partidos, tribunais e órgãos de controle produz uma sensação devastadora de cumplicidade. Ninguém precisa prejulgar culpados, mas todos têm obrigação de defender apurações independentes e transparentes. O pior desfecho para Brasília seria deixar o tempo apagar os fatos. Porque, quando as instituições se calam para preservar seus próprios interesses, quem acaba condenado é o cidadão à desconfiança.