Há um silêncio perigoso crescendo dentro da democracia brasileira. Não é o silêncio dos palanques, das redes sociais ou das campanhas milionárias. É o silêncio de uma geração que já não acredita na política, não confia nos partidos e começa a enxergar as eleições como um espetáculo distante de sua própria vida. Os jovens estão ficando fora. Fora dos partidos, fora das decisões, fora das candidaturas e, cada vez mais, fora das urnas.
Esse afastamento não aconteceu de repente. Foi construído ao longo dos anos pela repetição dos mesmos nomes, pelos escândalos de corrupção, pela ausência de renovação verdadeira e pela incapacidade das instituições de oferecer respostas concretas às necessidades de uma geração inteira. A juventude brasileira olha para a política e vê um ambiente envelhecido, fechado e controlado por grupos que se revezam no poder. Vê partidos que falam em renovação, mas continuam entregando seus espaços mais importantes aos mesmos caciques, às mesmas famílias e aos mesmos acordos de sempre. Depois, quando os jovens demonstram desinteresse pelas eleições, os dirigentes partidários fingem surpresa. Não há surpresa alguma. A política colhe o abandono que plantou.
Entre os jovens, esse sentimento é ainda mais profundo. Eles enfrentam desemprego, subemprego, salários baixos, dificuldade de acesso à universidade, ausência de perspectivas, violência, precarização do trabalho e uma crise crescente de saúde emocional. Ao mesmo tempo, assistem a uma política que parece discutir apenas cargos, alianças, fundos eleitorais, distribuição de espaços e sobrevivência de grupos. A linguagem não os alcança. As prioridades não os contemplam. As candidaturas não os representam.
Os partidos gostam de mostrar jovens em suas propagandas, nos movimentos de rua, nas caminhadas e nos eventos partidários. Gostam da imagem da juventude, de sua disposição, de sua presença nas redes sociais e de sua capacidade de mobilização. Mas não gostam de dividir o poder com ela. O jovem é chamado para carregar bandeira, produzir vídeos, preencher plateias e defender candidatos
A ausência da juventude nas eleições não deve ser tratada como simples apatia. É um sintoma grave de uma democracia que perdeu sua capacidade de inspirar. Uma geração que não acredita no processo político pode escolher três caminhos igualmente preocupantes: afastar-se completamente, votar apenas como protesto ou aderir a discursos radicais que prometem soluções rápidas para problemas complexos. Em qualquer desses caminhos, a democracia sai enfraquecida.
A política não pode reclamar da ausência de quem nunca foi verdadeiramente convidado a participar.
Em Alagoas, o quadro é ainda mais evidente. Mais uma eleição se aproxima sem que exista, até agora, uma candidatura jovem com verdadeira consistência, independência, densidade política e capacidade de representar uma renovação autêntica. As poucas figuras jovens que conseguem espaço quase sempre estão vinculadas às estruturas tradicionais. São patrocinadas por grupos antigos, protegidas por caciques ou apresentadas como continuidade de projetos familiares.
A política alagoana ainda é marcada pela força dos sobrenomes. Filhos, netos, sobrinhos, irmãos e parentes são apresentados como candidatos não necessariamente porque tenham construído uma trajetória própria, mas porque herdaram capital político, estrutura financeira e influência eleitoral. Naturalmente, ninguém deve ser condenado apenas por pertencer a uma família de políticos. Um filho de político pode ter preparo, vocação e capacidade. O problema surge quando o sobrenome substitui o mérito, quando a herança vale mais do que a trajetória e quando a candidatura nasce não de um projeto coletivo, mas da necessidade de preservar o poder familiar.
O resultado é uma juventude cada vez mais distante do processo eleitoral. Muitos não tiram o título, não acompanham os debates, não se interessam pelos candidatos ou preferem não comparecer às urnas. Outros votam apenas para punir. É justamente nesse espaço de frustração que o discurso antissistema encontra terreno fértil. O jovem que não enxerga representação nas candidaturas tradicionais pode aderir a uma figura desconhecida, improvisada ou radical, não por confiança absoluta, mas por rejeição ao que já existe.
É o voto contra todos. É o voto da raiva. É o voto de quem prefere o risco da ruptura à certeza da continuidade.
A população quer ética, eficiência, transparência e resultados. Quer saúde pública funcionando, segurança, educação, emprego e oportunidades reais. Quer ser tratada com respeito e não apenas procurada durante as campanhas. Os jovens querem participar, decidir, criar e transformar. Não querem apenas ouvir discursos escritos por profissionais de marketing.
A confiança política, depois de destruída, não se recupera com promessas. Não se compra com festas. Não se reconstrói com propaganda. Não se impõe com estruturas partidárias. Recupera-se com exemplo, coerência, abertura e participação verdadeira.
Alagoas precisa olhar com seriedade para esse problema. Um estado que não cria espaço para novas lideranças condena-se a repetir os mesmos ciclos, as mesmas disputas familiares e os mesmos métodos. Não haverá futuro político enquanto o passado continuar escolhendo sozinho todos os candidatos.
É preciso formar jovens, abrir os partidos, democratizar as decisões internas e oferecer condições reais para que novas lideranças possam competir. Não apenas candidaturas decorativas, criadas para cumprir formalidades, mas projetos com recursos, apoio e autonomia. A juventude não pode continuar sendo chamada apenas para a campanha. Precisa ser chamada para o poder.
Uma democracia que não atrai seus jovens começa a morrer por dentro. Envelhece, perde legitimidade e deixa de representar o futuro. Quando os jovens ficam fora, os velhos vícios permanecem dentro. E quando uma geração inteira deixa de acreditar nas instituições, a eleição deixa de ser apenas uma disputa entre candidatos. Passa a ser um julgamento do próprio sistema.
O Brasil e Alagoas precisam compreender esse alerta antes que seja tarde. Porque, quando a descrença encontra uma urna, ela não pede licença. Ela vota. E quase sempre vota contra tudo aquilo que a excluiu.
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