(BRASÍLIA) - Há eleições em que o eleitor escolhe simplesmente entre nomes. Há outras em que precisa escolher entre caminhos. A eleição para o Governo do Distrito Federal em 2026 pertence à segunda categoria. É dentro dessa perspectiva que a candidatura de Celina Leão se apresenta ao eleitor: não como uma candidatura improvisada ou fabricada às pressas, mas como consequência de uma trajetória construída em diferentes espaços da vida pública brasiliense. Celina foi deputada distrital, presidiu a Câmara Legislativa, exerceu mandato de deputada federal, ocupou funções no Executivo, tornou-se vice-governadora e chegou ao comando do Governo do Distrito Federal. Essa experiência acumulada importa porque governar Brasília não é tarefa simples. O Distrito Federal possui características únicas no Brasil. É, ao mesmo tempo, sede dos Poderes da República e uma grande metrópole marcada pelos mesmos desafios das maiores cidades brasileiras: desigualdade social, saúde, transporte público, segurança, habitação, mobilidade, educação e diferenças profundas entre as regiões administrativas. Governar Brasília exige, portanto, conhecer muito mais do que a Esplanada dos Ministérios. Exige conhecer a Brasília real, aquela que acorda cedo, enfrenta ônibus, trânsito, hospitais, escolas, filas e longos deslocamentos para trabalhar. E Celina conhece essa Brasília. Conhece o Legislativo local, conhece o Congresso Nacional, conhece a estrutura do Governo do Distrito Federal e conhece as cidades onde está a maioria da população. Sua trajetória também carrega um significado que não deve ser tratado apenas como detalhe eleitoral: a presença feminina no comando do poder. Durante muito tempo, as mulheres foram maioria entre os eleitores e minoria nos espaços onde as grandes decisões são tomadas. Celina rompe essa lógica não simplesmente porque é mulher, mas porque chegou ao centro do poder depois de construir uma carreira política própria. Sua atuação parlamentar também foi marcada por pautas relacionadas à proteção e à valorização das mulheres, o que acrescenta conteúdo político a essa representatividade. Mas existe uma questão ainda mais importante nesta eleição. Celina tem agora a oportunidade de mostrar que não pretende ser apenas a continuadora de um governo. Tem diante de si a possibilidade de apresentar à população aquilo que poderá ser, verdadeiramente, o governo Celina Leão. Essa diferença será fundamental. Ser vice-governadora significa participar de uma administração comandada por outra pessoa. Estar à frente do Governo significa assumir integralmente as decisões, as prioridades, os acertos e também os erros. Agora a responsabilidade é sua. A caneta está em suas mãos. E talvez esteja justamente aí uma das perguntas mais importantes da campanha: qual será a Brasília de Celina Leão? Essa resposta não poderá ser dada apenas por discursos. Terá de aparecer nas propostas, nas decisões administrativas e nos compromissos assumidos diante da população. A candidatura terá inevitavelmente de enfrentar questionamentos e temas difíceis. O episódio envolvendo o BRB e o Banco Master estará no debate político e será explorado pelos adversários. Celina já afirmou publicamente que era contrária à operação e argumentou que, na condição de vice-governadora, não tinha poder para alterar uma decisão tomada pelo então governador. A partir de agora, porém, essa separação deixa de existir. É exatamente por isso que esta eleição pode representar uma espécie de divisor de águas em sua carreira. Defender uma candidatura não significa entregar um cheque em branco. Democracia não funciona assim. Apoiar alguém significa acreditar que aquela candidatura possui condições de apresentar respostas aos problemas da sociedade, mas significa também cobrar, fiscalizar e manter independência para apontar erros. Celina precisa assumir compromissos claros com Brasília. Precisa colocar a saúde pública entre suas prioridades absolutas, enfrentar as dificuldades das emergências hospitalares, fortalecer a atenção básica e melhorar o atendimento à população. Precisa avançar na mobilidade, fortalecer o transporte coletivo e reduzir o sofrimento de quem passa horas diariamente entre a casa e o trabalho. Precisa ampliar as políticas habitacionais, enfrentar as desigualdades e levar a presença do Estado para onde ela ainda é insuficiente. Acima de tudo, precisa governar Brasília inteira. Existe uma Brasília monumental que o Brasil e o mundo conhecem. É a Brasília da Praça dos Três Poderes, do Congresso Nacional, dos palácios, dos ministérios e das embaixadas. Mas existe outra Brasília, muito maior e muito mais humana, que raramente aparece nos cartões-postais. É a Brasília de Ceilândia, Samambaia, Sol Nascente, Estrutural, Santa Maria, Recanto das Emas, Planaltina, Brazlândia e tantas outras regiões. É ali que vive uma parcela gigantesca da população que mantém o Distrito Federal funcionando. Essas cidades não podem ser lembradas somente durante as campanhas eleitorais. O Palácio do Buriti precisa estar presente onde o cidadão vive. Celina possui ainda uma característica importante para quem pretende governar a capital da República: experiência política suficiente para compreender que Brasília não pode permanecer permanentemente aprisionada às guerras ideológicas nacionais. Evidentemente, a capital respira política. Aqui estão o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal, o Palácio do Planalto, os ministérios, as representações diplomáticas e algumas das instituições mais importantes do país. Mas os problemas cotidianos do cidadão não possuem ideologia. Quem espera atendimento numa emergência quer ser atendido. A mãe que procura uma creche quer uma vaga. O trabalhador que espera um ônibus quer transporte digno. O comerciante quer segurança. O jovem quer oportunidade. A família quer qualidade de vida. Governar é resolver problemas. E uma das marcas que Celina poderá buscar para seu governo é justamente essa: menos guerra política e mais administração. Naturalmente, a eleição terá adversários, divergências e confrontos. Isso faz parte da democracia. Nenhum candidato deve receber o Governo de Brasília por antecipação. O mandato precisa ser conquistado nas urnas, e é o eleitor quem dará a palavra definitiva. Para conquistar essa confiança, Celina terá de demonstrar que sua candidatura não representa simplesmente a continuidade de uma estrutura política, mas a possibilidade de uma nova etapa administrativa. Talvez esse seja simultaneamente seu maior desafio e sua maior oportunidade. Ela conhece a máquina pública, mas terá de mostrar independência para corrigir aquilo que não funciona. Conhece os grupos políticos, mas precisará demonstrar que governará para a população. Possui experiência parlamentar, mas terá de convertê-la em capacidade executiva. Conhece politicamente Brasília, mas será cobrada para mostrar que conhece também profundamente suas necessidades sociais. Celina não precisa renegar sua história para construir uma nova história. Precisa compreender que chegou o momento em que será julgada principalmente pelas próprias escolhas. Sua trajetória lhe deu experiência. A política lhe ofereceu oportunidades. O eleitor lhe concedeu mandatos. As circunstâncias políticas a levaram ao Governo do Distrito Federal. Daqui para frente, entretanto, nenhuma circunstância substituirá sua responsabilidade. Se vencer as eleições, será o seu governo, com suas prioridades, suas escolhas, sua equipe, seus acertos e seus erros. Talvez nunca tenha existido um momento tão importante em sua trajetória política. Celina deixou de ser apenas parlamentar, secretária, vice-governadora ou liderança partidária. Tornou-se protagonista. E protagonistas precisam apontar caminhos. É nesse ponto que a pergunta que dá título a este artigo ganha sentido: por que Celina Leão? Seus defensores encontram a resposta numa combinação de experiência, conhecimento das estruturas do Legislativo e do Executivo, presença nas diferentes realidades do Distrito Federal, trajetória política própria e capacidade de diálogo com diferentes setores da sociedade. Há ainda o simbolismo de uma mulher ocupando o espaço mais alto do poder político local, num país em que a participação feminina continua muito distante de corresponder ao peso das mulheres na sociedade e no eleitorado. Mas talvez o argumento decisivo para seus apoiadores seja outro: chegou o momento de saber o que Celina Leão é capaz de fazer quando o governo passa a carregar definitivamente sua própria assinatura. Apoio político não deve significar silêncio diante dos erros nem concordância automática. A independência é indispensável a quem acompanha a vida pública e ainda mais importante para quem escreve sobre política. Escolher, entretanto, também faz parte do exercício da cidadania. Celina apresenta-se ao eleitor com experiência suficiente para não poder alegar desconhecimento dos problemas e com poder suficiente para ser cobrada pelas soluções. Essa combinação aumenta sua responsabilidade. Brasília precisa avançar como uma cidade socialmente mais justa, administrativamente eficiente, politicamente equilibrada e capaz de enxergar a população que vive muito além dos prédios monumentais do centro da capital. Celina Leão terá de demonstrar nas urnas e, caso seja escolhida, no exercício do governo, que pode liderar esse projeto. Por isso, a pergunta continuará presente durante toda a campanha: por que Celina Leão? A resposta que sua candidatura pretende oferecer é que chegou a hora de Brasília conhecer não apenas a antiga vice-governadora, não apenas a sucessora de um projeto político e muito menos somente a candidata de um grupo, mas Celina Leão como protagonista de seu próprio projeto de governo. A decisão, naturalmente, será do eleitor. E será pelo voto que Brasília decidirá se deseja entregar a ela a oportunidade de transformar experiência acumulada em uma marca própria para o futuro do Distrito Federal.
Pedro Oliveira
Jornalista (BRASÍLIA)
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