Há decisões que mudam um processo. Há outras que mudam quem julga o processo. A de sábado, 12 de setembro, foi da segunda espécie.

Edson Fachin assumiu a relatoria da apuração sobre a suposta ligação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. No mesmo despacho, remeteu à Presidência do STF os inquéritos do Banco Master e do INSS, suspendendo ambos. André Mendonça, sem alternativa, concordou com a mudança antes de ela ser anunciada.

O fato, sozinho, já merece uma pausa.

Um ministro que investigava Moraes deixa de investigar. O ministro que preside a Corte passa a decidir o destino da investigação contra seu colega. E faz isso em comum acordo com quem perdia a relatoria. Não por imposição, mas por conversa.

Há quem leia o episódio como uma tentativa de administrar a crise. Fachin justificou a decisão citando o risco de “grave lesão à ordem pública e à integridade” do tribunal, diante de decisões monocráticas sobrepostas. É uma leitura possível.

Há também quem interprete o episódio como um movimento tático de Moraes, que teria pedido, ao lado de Gilmar Mendes, a retirada da relatoria de Mendonça.

As duas leituras não se excluem. Nenhuma delas, porém, está provada. Ficam registradas como aquilo que são: interpretações concorrentes sobre um mesmo fato documentado.

O que não está documentado, e por isso não deve ser apresentado como fato, é a existência de pagamento de propina a Moraes.

O que existe, apurado e público, é um contrato milionário entre o escritório da família de Moraes e o grupo de Vorcaro. Existe também um relatório da Polícia Federal apontando uma possível troca de informações sigilosas entre os dois.

É grave o suficiente. Não precisa de adjetivos que a apuração ainda não sustenta.

A memória institucional ajuda a explicar por que a suspeita cresce tão rapidamente.

Fachin já teve papel decisivo nos julgamentos que afastaram a competência da 13ª Vara Federal de Curitiba e abriram caminho para a reabilitação política de Lula.

Isso não prova que o mesmo roteiro esteja sendo repetido agora. Explica, porém, por que parte da opinião pública chega a este episódio desconfiada, antes mesmo do surgimento de qualquer prova nova.

Essa desconfiança já tem um teste marcado.

No dia 15 de setembro, o próprio Fachin conduzirá a sessão que decidirá se a Polícia Federal poderá continuar investigando Moraes. No dia 23, será apreciado o pedido contra Mendonça, por suposto abuso de autoridade.

São dois julgamentos dentro de um único tribunal. Ministros julgarão ministros sobre fatos que os envolvem diretamente.

O desfecho mostrará se o Supremo consegue separar a sua autopreservação da Justiça. Ou se confirmará, mais uma vez, que a Corte reserva para si mesma um critério que não oferece a mais ninguém.

Que o resultado desminta a desconfiança.

Se não desmentir, o país vai anotar.